Análise: O Palhaço, de Selton Mello
Por Joel Júnior
Foi com lágrimas nos olhos do começo ao fim que assisti ao filme O Palhaço. O tema circo sempre me fascinou, mas confesso que o filme de Selton Mello, em seu segundo longa após o belíssimo Feliz Natal, me surpreendeu com toda sua simplicidade e leveza. As primeiras lágrimas (de alegria) vieram logo no começo com a primeira apresentação dos palhaços Puro Sangue e Pangaré, se você pensa que as piadas e encenações dos dois não funcionam na tela grande, pode se preparar, pois ver Paulo José e Selton Mello na pele dos respectivos palhaços foi uma das coisas mais emocionantes que o cinema já proporcionou, e isso foi apenas o começo.
No filme, Benjamim (Selton Mello) trabalha no Circo Esperança junto com seu pai Valdemar (Paulo José). Juntos, eles formam a dupla de palhaços e fazem a alegria da plateia. Mas a vida anda sem graça para Benjamin, que passa por uma crise existencial e assim, volta e meia, pensa em abandonar o circo. A partir dai somos apresentados a vários personagens, alguns que trabalham no circo, e outros que aparecem na medida em que o circo muda de cidade.
Selton aproveita para homenagear grandes atores, há espaço para situações hilárias, como o jantar na casa do prefeito e emocionantes como a cena entre Selton e Fabiana Karla, o silêncio entre os dois personagens emociona, e é na troca de olhares que se percebe como esses dois que nunca se viram têm tanto pra falar um para o outro, nesse momento Benjamin diz a frase mais bonita do filme, resumindo tudo o que vem passando.
Destaca-se ainda a impagável aparição de Moacyr Franco, em sua estreia no cinema e premiado no Festival de Paulínia, num monologo incrível, divertido e surreal. As homenagens se estendem em figuras clássicas do imaginário popular como Jorge Loredo e Ferrugem. Paulo José está inacreditável, mas citar um ou outro ator não convém já que todos estão ótimos. A química entre Selton e Paulo gera mais lágrimas (de emoção agora).
A melancolia de Benjamin, sua dúvida e insatisfação com a vida que vem levando, nos faz questionar o que realmente importa, no que realmente nos faz feliz, sua obsessão com ventiladores diverte de uma maneira tensa e subliminar, e surge a pergunta: que caminho devemos seguir em busca de uma tão sonhada felicidade?
Selton Mello capricha no acabamento do filme, com direção de arte, figurinos primorosos e na sequência de créditos iniciais e finais, dá o devido destaque para seus atores, impõe ritmo bom e consegue com delicadeza divertir, mas acima de tudo emocionar. Homenageia os grandes mestres do cinema me fazendo lembrar do olhar triste de Chaplin, e aqui a comparação não é de forma alguma exagerada.
